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No verão da crise, os turistas se adaptam a um novo jeito de viajar

Com Mickey, mas sem parques. a Ferreira e o filho Luca Ferreira de Carvalho. Eles vão viajar para Orlando e Miami. Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo.

Este verão não será igual ao que passou.

O brasileiro reforçou o empenho para manter o hábito de viajar nas férias, mas teve de recorrer ao jeitinho: no lugar das compras, o foco agora são passeios. Aquela longa viagem de janeiro agora dura menos tempo, mas o pagamento pode acabar somente no verão de 2017.

Promoções, roteiros mais curtos e para destinos mais próximos, câmbio reduzido, parcelamento em até 24 vezes (com juros) ou dez vezes sem juros se tornaram palavras de ordem entre as empresas de turismo. Para a maioria, o Nordeste é destino preferencial neste verão:

— No verão, o Brasil sempre é o destino mais forte. Mas este ano, a procura por viagens no país subiu 20%. Não tem menos gente viajando. O que mudou foi o jeito de viajar: a pessoa faz o que sonhou em destino mais próximo — diz Valter Patriani, vice-presidente de Vendas da CVC.

Foi o que fez a coordenadora administrativa Marcela Cardoso:

— Estarei de férias em janeiro, mas pesquisei preços para viajar pelo Brasil e achei caro. Preciso de uma semana para descansar e me preparar para outro ano difícil. Então decidi passar o Ano Novo em Búzios e parcelei pagamentos.

A CVC registrou aumento de 20% em passageiros no terceiro trimestre em relação a igual período do ano passado. Entre as opções disponíveis, há pacotes de quatro dias para Buenos Aires a partir de R$ 1.216, em até dez vezes sem juros.

Segundo Michael Barkoczy, presidente da Flytour Viagens, houve alta de cerca de 20% na procura por viagens em dezembro e janeiro. Entre as opções, há viagens para Balneário Camboriú, em Santa Catarina, por cinco dias a partir de R$ 1.195, com passagem, hospedagem e ingresso para o Beto Carrero World.

— O tíquete médio caiu de 25% a 30%. Mas as pessoas não abrem mais mão das férias.

PROMOÇÕES PARA O EXTERIOR

Produtos do tipo all-inclusive, com hospedagem e as refeições, como resorts e cruzeiros marítimos, ganharam destaque.

A Flytour e a CVC têm, em média, 60% de seus negócios voltados para viagens nacionais. Este ano, essa fatia já bateu os 70%. As praias do Nordeste correm na frente no circuito de férias. Em seguida, aparecem destinos próximos, como Argentina e Chile, além do Caribe. O Canadá conquistou posições pelo câmbio mais suave ao bolso do brasileiro. Mas as promoções de passagens para os EUA e a Europa mantêm esses destinos na briga.

— As promoções para o exterior chamam atenção. Mas o Brasil é o destino mais forte. Hoje, 60% das viagens vendidas são nacionais. No fim de 2014, eram 40% — conta Edmar Bull, vice-presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav).

Ele prevê alta de 5% nas vendas do segmento sobre o último verão. Com a mordida da inflação de dois dígitos, porém, não haverá aumento real.

— O viajante está mais cauteloso, reduz gastos, compartilha hospedagem com família e amigos. E está fechando a viagem na última hora — diz Bull.

A representante comercial Sabrina Ferreira embarca com o marido e o filho para Orlando e Miami antes do Natal. É roteiro habitual para a família. Este ano, eles decidiram manter os planos usando passagens em promoção e ajustando gastos:

— Em abril, comprei a passagem para viajar agora por R$ 1.500, metade do preço em 2014. Optamos por alugar um apartamento em Miami, o que ajuda a economizar na alimentação. O foco em compras passou para passeios. Os ingressos dos parques foram parcelados.

A Braztoa, que reúne as operadoras de turismo do país, prevê redução de 5% a 10% em número de passageiros, embora a receita da temporada não deva cair, pois houve reajuste de preços devido à alta do dólar e à inflação.

— Os roteiros internacionais seguem tendo apelo — diz Magda Nassar, presidente da Braztoa. — Se o produto tem preço em dólar, mesmo com câmbio reduzido, é importante calcular o preço final em reais.

O CRUZEIRO ENCOLHEU

Patriani, da CVC, conta que os cruzeiros marítimos pela costa brasileira “vendem mais que pão quente”. Mas o segmento já dá provas de como a crise e os custos de operação no Brasil podem afetar negativamente o turismo. Neste verão, dez navios vão oferecer perto de 600 mil lugares em mais de 200 roteiros pelo litoral. É a retomada do patamar de duas temporadas atrás, avançando na comparação com os 550 mil da última, que teve igual número de embarcações. Parte da expansão é explicada pelo aumento na oferta de minicruzeiros — mais curtos e de menor preço.

— Na temporada 2016/2017, porém, já teremos 4 navios a menos. Isso significa queda de 40% em passageiros e receita. Na temporada passada, o impacto econômico gerado pelos cruzeiros que operaram no litoral foi de R$ 2,1 bilhões. Perder 40% é abrir mão de mais de R$ 800 milhões em receita — diz Marco Ferraz, presidente da Clia Abremar.

As justificativas das companhias, diz Ferraz, se baseiam em queixas que se repetem a cada ano: custos de operação e fraca estrutura portuária. Assim, o Brasil perde em competitividade para destinos em outras partes do mundo, como Austrália, China e Cuba.

— Não há problema de demanda, embora, com a crise, exista um limite de preço a ser cobrado do passageiro. O problema é o custo da operação. Na venda de roteiros, as companhias oferecem até parcelamento dos gastos a bordo — conta Ferraz.

Fonte: O Globo

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