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A Embraer tenta limpar sua imagem


A Embraer tornou-se um símbolo – talvez o maior deles – das privatizações bem-sucedidas dos anos 1990, promovidas pela gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso.

A empresa, deficitária enquanto estatal, virou um cartão de visitas do alto escalão do governo brasileiro em missões internacionais, e motivo de orgulho a um país notoriamente exportador de commodities como soja, café e minério de ferro. Virou uma gigante com R$ 15,1 bilhões de receita anual. Nos últimos meses, no entanto, a empresa ganhou destaque nos recorrentes noticiários de corrupção envolvendo empresas brasileiras.

Até que, na segunda-feira 24, a Embraer divulgou um inédito comunicado informando ter fechado um acordo para pagar a quantia de US$ 206 milhões para encerrar investigações na Justiça dos Estados Unidos e do Brasil. A companhia admitiu ter incorrido no pecado capital de pagar propinas a funcionários de governos no exterior. “A Embraer reconhece responsabilidade pelos atos de seus funcionários e agentes, conforme os fatos apurados. A Embraer lamenta profundamente o ocorrido”, informou o comunicado. “A companhia aprendeu e evoluiu com essa experiência e dará continuidade à sua trajetória de sucesso reconhecida ao longo dos seus quase 50 anos de existência, na qual entregou mais de 8 mil aeronaves ao mercado em mais de 90 países.”

A definição da multa em US$ 206 milhões, estabelecida pela SEC, a agência que regula o mercado de capitais nos Estados Unidos, se deve à constatação de que a empresa lucrou US$ 83 milhões por favorecimentos em decorrência do pagamentos de propinas por meio de sua subsidiária americana, com o dinheiro saindo de uma conta da Embraer em agência do Citibank em Nova York, para oficiais dos governos da República Dominicana, da Arábia Saudita e de Moçambique. “A empresa alegadamente alterou seu balanço e registros para esconder pagamentos ilícitos, e também se envolveu em esquema contábil na Índia”, escreve o relatório da SEC.

A agência ainda informou que “essas propinas foram autorizadas por executivos sênior da empresa e suas subsidiárias que conheciam ou ignoraram bandeiras vermelhas que indicavam uma alta probabilidade que tais pagamentos eram direcionados, ou seriam repassados, para oficiais estrangeiros”. No acordo para vender três jatos executivos para a estatal saudita de petróleo Saudi Aramco, um funcionário da empresa exigiu o pagamento de US$ 550 mil por aeronave para convencer pessoas ligadas ao governo e à companhia a fecharem o negócio.

A saída do vendedor da Embraer foi utilizar uma terceira empresa na África do Sul, como forma de contornar duas regras internas da empresa brasileira: não fazer pagamentos para terceiros em contas bancárias localizadas em jurisdições consideradas paraísos fiscais e não fazer pagamentos diretos para funcionários de um cliente. Não houve justificativa de negócios para envolver a companhia sul-africana na transação e o repasse apareceu no balanço da Embraer como comissão de vendas. No caso das vendas de dois jatos para a estatal Linhas Aéreas de Moçambique, foi utilizada uma empresa de São Tomé e Príncipe como intermediária.

Mas ela foi criada em novembro de 2008, e recebeu pagamentos da Embraer relativos a serviços de consultoria realizados sete meses antes. A SEC aponta 10 executivos da Embraer como envolvidos diretos na propina, envolvendo as áreas de defesa, aviação executiva e legal. Entender como a Embraer se meteu nessa enrascada e suas consequências é um mistério guardado a sete chaves pelos seus controladores e pelos engenheiros do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), esses últimos parte integrante da história da companhia e do seu DNA.

“Tudo corre em segredo, como era de se esperar de uma empresa com uma cultura de pouca exposição dos seus negócios”, diz um ex-funcionário com trânsito na presidência da companhia, que prefere o anonimato. “A questão é saber quem expôs o caso a público, às autoridades, e o que isso vai significar daqui por diante.” Uma análise feita é que a empresa, ao entrar com força no concorrido mercado global de aviação executiva, depois da privatização, ficou exposta a práticas antiéticas que pareciam muito distantes do perfil da Embraer.

A companhia de São José dos Campos (SP) passou a ser controlada pelos investidores do banco Bozano, Simonsen, que buscaram reforçar áreas além da técnica. “Em sua primeira fase, desde a sua fundação em 1969, a empresa era sustentada pelo Estado, não tinha grandes preocupações comerciais e era liderada por engenheiros que desejavam conquistar para o Brasil uma independência de produção de aviões”, diz Edvaldo Pereira Lima, autor do livro Por Trás do Tapete Mágico – Histórias da Aviação. “Após a privatização, a fragilidade comercial começou a ser enfrentada, junto com o objetivo de dar lucro e criar uma indústria aeronáutica.”

Para liderar essa fase, em 1995, Mauricio Botelho, ex-diretor executivo do Bozano, foi convidado para administrar o negócio. A sua estratégia de levar a empresa a preencher a lacuna de mercado para aviões de médio porte, com cerca de 120 assentos, fez a empresa superar a canadense Bombardier e se tornar a terceira maior força do mundo da aviação executiva, depois das gigantes Boeing e Airbus. Ele também preparou o seu sucessor, Frederico Curado, presidente desde 2007 e que anunciou a sua saída em junho de 2016. Foi substituído por Paulo Cesar de Souza e Silva, numa dança das cadeiras que surpreendeu o mercado.

O aumento da força comercial foi simbolizado em uma atitude tomada neste ano. Pela primeira vez, a área administrativa da equipe foi separada do setor de engenharia e levada para a capital paulista. Mas a entrada na disputa global pode ter aberto brechas para desvios éticos. “A Embraer se dispôs a jogar esse jogo, e atuar em mercados pouco transparentes, como os da África, Oriente Médio e do Leste Europeu”, diz Lima. “Na disputa por esses e outros contratos, pontualmente surgem casos de práticas que beiram a ilegalidade, em todas as grandes do setor.”

A alegação de um alto executivo que participava da gestão da Embraer é que os casos estiveram circunscritos a episódios pontuais e que nunca houve uma cultura que incentivasse o fechamento de contratos a qualquer preço. Jamais, segundo ele, teriam acontecido discussões abertas sobre pagamento de propinas ou uma estrutura que protegesse essas práticas. Mas, além de uma maior agressividade comercial, outro fator poderia ter influído na suposta prática de “vistas grossas” da cúpula em alguns acordos com estatais no exterior.

Um executivo que participava da elaboração de auditorias da empresa alega que muitos contratos eram apresentados com a recomendação de que não fossem esmiuçados com o mesmo rigor de compliance de acordos firmados com empresas privadas. Esses contratos tinham em comum o fato de terem em sua outra ponta aliados com os quais os governos de Lula e Dilma teriam boas relações, dentro da estratégia de fortalecer o comércio no hemisfério Sul. A Embraer, questionada pela DINHEIRO, nega a existência de um alinhamento da empresa com interesses de Estado e critica essa avaliação.

“A Embraer nega veementemente qualquer interferência do governo brasileiro em sua gestão. A Empresa foi privatizada em 1994 e possui ações negociadas nas bolsas de São Paulo e Nova York. O capital da companhia é totalmente pulverizado, sem a existência de um acionista controlador”, respondeu a companhia, por meio de nota. Ter reconhecido o erro de seus funcionários e sua responsabilidade foi um passo importante para a Embraer limpar a imagem de empresa corrupta. O principal desafio será evitar deslizes no futuro.

Fonte: Isto é Dinheiro

Um comentário:

  1. Matéria gentilmente enviada pelo usuário do AEROJOAOPESSOA, Rudolf Thales.

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