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Na crise, empresas aéreas apostam em salas VIP

Estreia. O casal de uruguaios Carlos Icasuriaga e Lucia Caballero na sala VIP do grupo Plaza, no embarque internacional do Galeão: estreantes nos “lounges”. Foto: Custodio Coimbra/Agência O Globo.

Comer em louça importada, beber vinho e whisky à vontade ou tirar um cochilo em cama queen size antes de viajar.

Os mimos são alguns dos serviços que estão sendo oferecidos em salas VIPs recém-inauguradas nos aeroportos do Galeão, no Rio, e de Guarulhos, em São Paulo. Oito salas abriram as portas nos últimos seis meses — três delas em dezembro, no terminal carioca. Uma aposta das companhias aéreas no público classe A, num momento em que a demanda por voos domésticos cai há 16 meses seguidos e as empresas acumulam prejuízos bilionários.

No início do mês, a Gol inaugurou uma de suas salas na área de embarque internacional do terminal 2 do Galeão — outra será aberta em 2017, no embarque doméstico, e mais duas iniciaram operação em Guarulhos este ano. O ponto forte dos lounges é a alimentação. Além das massas, há variedade de petiscos, que vão de minipizzas e barquetas recheadas a bruschetas. Doces tipicamente brasileiros, como arroz doce e brigadeiro, dão água na boca e precisam ser repostos com frequência pela equipe de atendimento. No bar, que funciona de 12h às 24h, caipirinha é a melhor pedida. E ainda dá para tomar banho e fazer massagem antes de embarcar. São R$ 50 por 15 minutos.

— Operamos salas VIP desde que compramos a Varig (em 2007). Mas, com a expansão dos principais aeroportos, tivemos que realocá-las e, assim, decidimos inaugurar novos espaços. É um serviço valorizado pelo passageiro que viaja com frequência, especialmente a negócios, e que gera um valor de receita maior para a companhia — disse Paulo Miranda, diretor de produtos e experiência do cliente da Gol.

PAGUE PARA ENTRAR

A operação de duas salas VIP no Galeão é justificada pelo reposicionamento estratégico da empresa. Desde maio, a Gol assumiu a liderança no número de decolagens no Rio, com 3.900 voos por mês. Mas aterrissar por aqui ou em Guarulhos não garante passe livre nos lounges. Tanto no caso da Gol como no de outras aéreas, os espaços são gratuitos para clientes mais graduados de programas de fidelidade e para quem voa de primeira classe ou de executiva. Há possibilidade, porém, de usar as salas mediante pagamento de entrada, mesmo que o passageiro esteja voando em uma empresa concorrente. Os preços variam de US$ 50 (Gol) a US$ 70 (Star Alliance).

— Aeroporto é muito desconfortável, falta lugar para sentar, o portão é alterado várias vezes, você anda pra lá e pra cá, não tem lugar pra carregar o celular, falta conexão à internet — queixou-se o consultor de telecomunicações Bismarck de Paula Filho, morador de Florianópolis e que passa pelo terminal nacional de Guarulhos pelo menos duas vezes por semana. — O que eu ganhei em conforto e em tempo (usando o lounge da Gol) é impressionante. Só saio da sala no momento do embarque.

Para Jorge Leal, professor de Transporte Aéreo da Escola Politécnica da USP, o investimento nas salas VIP faz parte da estratégia das companhias aéreas de focar na classe executiva e na parcela da população “mais abastada”, num momento em que a redução da oferta de voos pelas aéreas tende a elevar os preços das passagens. Isso deve afastar ainda mais os passageiros que já estão deixando de viajar de avião devido à crise econômica, numa espécie de re-elitização do transporte aéreo que, nos últimos anos, havia ganho novos passageiros, com a queda do preço médio do bilhete e o aumento da renda.

— Quem viaja a negócios e quem pertence às classes mais abastadas são menos afetado pela crise e pela alta das passagens. Certamente quem viaja de econômica é mais afetado, por ser mais sensível a preço. As aéreas perceberam esse movimento e perceberam que há uma demanda por melhores serviços — diz Leal.

A American Airlines inaugurou sua sala no Galeão em outubro. São 600 metros quadrados decorados com luminárias importadas dos Estados Unidos e equipados com aparelhos de TV e computadores, para quem não quer se desligar do trabalho ou das notícias. Tem até impressora que pode ser programada para imprimir arquivos enviados pelo passageiro de casa, desde que o número de impressões não supere dez páginas.

Os que preferem relaxar podem apreciar o vaivém dos aviões no pátio, enquanto tomam uma taça de prossecco ou copo de whisky. Vinhos tinto e branco também estão sempre no cardápio. Não se preocupe se bebida alcoólica não é a sua. Além de refrigerante, sucos e chá gelado, tem água de coco e água aromatizada. A de maçã costuma fazer sucesso. E o buffet tem opções quentes, além de saladas e sanduichinhos, servidos em louça importada dos EUA. Se o voo vai demorar muito, vale uma ducha. O xampu e o sabonete são da Granado e as toalhas são assinadas pela Trousseau.

Quem tem família grande também pode ficar tranquilo. Uma das novidades da sala é o espaço Kids, dedicado às crianças. Há desde livros da Galinha Pintadinha a games para os mais velhos. A nova sala VIP no Galeão faz parte de uma estratégia global da companhia de reposicionar a marca. A American está investindo mais de US$ 3 bilhões em aeroportos e cabines dos aviões, o que inclui a modernização dos lounges. No Brasil, a empresa também mantém uma sala VIP em Guarulhos desde 1993, que foi completamente reformada em 2015 e que, assim como a do Galeão, é aberta aos parceiros da Oneworld.

O grupo de companhias aéreas concorrentes, que forma a Star Alliance, não ficou para atrás. A aliança — que tem entre seus membros a brasileira Avianca e estrangeiras como a portuguesa TAP e a alemã Lufthansa — também apostou no Rio e abriu as portas de sua sala VIP no último dia 9, seguindo o padrão do lounge que funciona no aeroporto internacional de São Paulo, inaugurado em 2014. São apenas seis espaços como esse no mundo, e o Brasil é o único país que tem dois.

— O Brasil tem grande possibilidade de expansão. No Rio, por exemplo, temos 370 voos semanais de seis de nossas companhias — afirmou Mark Schwab, presidente global da Star Alliance.

Em São Paulo, o acesso à internet no lounge da Star Alliance é garantido pela conexão em duas frequências diferentes, para evitar falha de sinal. Há quatro suítes de banho e a decoração tem um quê de brasilidade, com uso de fibras naturais e plantas nacionais. No banheiro, toca música ambiente e o repertório é sempre de chorinho ou bossa nova. Mas o que mais atrai os passageiros são as bebidas. O sul-africano Jeff Geoffrey, por exemplo, esteve no Brasil pela primeira vez em novembro, para prospectar negócios. E vai levar uma boa lembrança do país. Entre os serviços oferecidos na sala VIP, a seleção de cafés foi a que mais gostou:

— É uma boa despedida do Brasil, tomei duas ou três xícaras. O espaço é confortável e silencioso.

Além das aéreas, empresas independentes aderiram à onda das salas VIP. O grupo Plaza Premium, de Hong Kong, abriu três no Galeão este ano, uma para voos domésticos, uma para os internacionais e uma no edifício garagem do aeroporto. Nesta última, não é preciso estar com voo marcado. Se a ideia é esperar um parente ou amigo que está retornando de viagem, basta desembolsar R$ 85 (preço até 30 de março) para entrar. Tem até quarto, com cama queen size, para tirar uma soneca. Sem custo extra.

A sala também é uma opção para quem gosta de chegar bem cedo ao aeroporto para garantir que não vai perder a viagem. Em vez de esperar no saguão, o passageiro pode ficar no espaço VIP até a hora do embarque. Nem precisa se preocupar com as malas. Há totens para fazer o check in na sala e funcionários para carregá-las até o despacho de bagagem.

— Queremos desenvolver a cultura de salas VIP no Brasil. Tentamos não fazer muito glamour e apostar em serviços que trazem conforto e praticidade para os clientes — disse Joyce Knnop, gerente de vendas e marketing do Plaza, frisando que a empresa, presente em 16 países, escolheu o Brasil para iniciar sua atuação na América Latina.

O piloto Teófilo Soares e sua mulher, a psicóloga Juliana Soares, aproveitaram para descansar um pouco em uma das salas do Plazza antes de retornarem para Curitiba, onde moram. Eles vieram para o Rio para ver a família no fim de novembro. Como viajavam com os filhos, Manoela, de 9 anos, e Fernão, de 10, e as crianças iriam direto para a escola quando chegassem à capital paranaense, a “escala” no lounge foi providencial:

— Aqui tem uma comidinha rápida que criança gosta, como pão de queijo e um petisquinho de frango. Eles vão direto para o colégio e não teriam tempo para almoçar se não estivéssemos aqui — contou Juliana.

O serviço dos lounges, porém, tem falhas e ainda ficam aquém dos oferecidos na Europa e no Oriente Médio, onde spa, poltronas reclináveis e camas são relativamente comuns. Na sala internacional do Plaza, por exemplo, os tomates do buffet de saladas estavam congelados no dia em que o GLOBO visitou o espaço. E duas das três saboneteiras no banheiro feminino não tinham sabão. Na sala VIP nacional em Guarulhos, da Gol, o wi fi funciona bem, mas quem precisa de tomada para recarregar o celular ou conectar o computador têm de procurar. A repórter encontrou diversos pontos sem energia.

Tanto os espaços da Gol quanto o da Star Alliance ficam prejudicados por problemas estruturais dos prédios do aeroporto paulista. No espaço VIP nacional da Gol, por exemplo, cerca de 30% da sala estavam interditados devido a uma forte chuva. No da Star Alliance, mais de cinco goteiras rodeavam os passageiros. Neste caso, a água caía dos aparelhos de ar-condicionado do terminal 3. Procurado, o GRU Airport – Aeroporto Internacional de São Paulo informou que está ciente das ocorrências e que “está tomando as providências necessárias para eliminar os pontos de vazamento”.

Fonte: O Globo

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