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Crise do lixo faz Líbano contratar caçadores por segurança de aeroporto

Caçador carrega corpo de ave em lixão próximo ao aeroporto internacional de Beirute. Foto: Anwar Amro - 14.jan.2017/AFP.

Sob o olhar atento de agentes de segurança, caçadores se posicionaram em vários pontos da pista de pouso do aeroporto de Beirute, com espingardas de prontidão.

Sua missão: garantir a segurança dos aviões que pousavam e decolavam. O risco: bandos de gaivotas famintas que buscam alimento em um lixão a céu aberto nas proximidades do aeroporto e acabam cruzando o caminho de voo de jatos comerciais.

O governo libanês foi obrigado a recorrer aos caçadores no mês passado, depois de uma gaivota ser sugada para dentro do motor de um avião que se preparava para pousar, desencadeando preocupações com a segurança no único aeroporto internacional do país.

Trata-se do incidente mais recente em uma prolongada "crise do lixo" que, para muitas pessoas, acabou simbolizando a má gestão, os problemas infraestruturais e a paralisia política que frustram a população libanesa há anos.

Muitos esperavam que a situação melhorasse depois que os partidos políticos nacionais finalmente concordaram em encerrar um impasse político de 29 meses com a eleição do veterano político Michel Aoun, aliado do grupo xiita Hizbullah, para a Presidência, em outubro passado. Um novo governo foi formado em tempo recorde, tendo como primeiro-ministro Saad Hariri, durante anos rival de Aoun.

Mas hoje, mais de quatro anos mais tarde, pilhas de lixo se derramam de contêineres obstruindo um cruzamento perto do porto, e o fedor do lixo se espalha por partes da zona leste de Beirute.

"São as mesmas pessoas de sempre que voltam para o governo, então por que alguma coisa haveria de mudar?", perguntou a estudante universitária Mira. "Precisamos nos livrar deles todos para podermos começar a pensar em alguma mudança real."

Na semana passada, um juiz deu ao governo o prazo de quatro meses para fechar o lixão próximo ao aeroporto, aberto há menos de um ano em um esforço para aliviar a crise do lixo.

O ministro do Meio Ambiente, Tarek Khatib, insistiu para o "Financial Times" que a crise do lixo será resolvida, mas não revelou planos detalhados.

"O povo libanês precisa entender que estamos vivendo uma nova era: uma era de transformações e reformas", disse Khatib. "A população não vai sofrer como sofreu no passado e não será mais incomodada pela crise do lixo."

Mas o governo ainda não fez menção a dois dos problemas cruciais com que precisa lidar: a aprovação do primeiro orçamento público desde 2005 e como limitar a dívida pública, que já chega a US$ 71,65 bilhões (R$ 223,2 bilhões), o equivalente a 139% do PIB nacional.

Em vez disso, o governo vem criando pastas novas que afirma que vão atender às demandas da população: um Ministério de Assuntos da Mulher (sob o comando de um homem) e um Ministério de Combate à Corrupção, cujo titular diz que a corrupção não é um problema sério.

A fraqueza do governo frequentemente é atribuída ao sistema de partilha confessional do poder, estabelecido como parte do acordo que em 1990 pôs fim à guerra civil libanesa, travada ao longo de 15 anos.

Os cargos governamentais e a representação no Parlamento são distribuídos de acordo com os diversos grupos religiosos e seitas do país: muçulmanos xiitas, sunitas e drusos, além de cristãos maronitas, ortodoxos, protestantes e outros.

Com o fim da guerra, líderes militares sectários depuseram as armas, trajaram ternos e tornaram-se políticos e membros do governo. As instituições do Estado viraram redutos de diferentes seitas, que, segundo críticos, utilizaram o governo para acumular lucros e distribuir benefícios a suas comunidades.

As interferências regionais no país, pelas quais os principais culpados são a Síria, a Arábia Saudita e o Irã, exacerbaram e complicaram as rivalidades libanesas.

A escolha do presidente foi afetada por essa política e essas influências regionais. A eleição de Michel Aoun foi vista como sinal da ascendência do Irã –que apoia o Hizbullah– no Líbano, às custas de sua rival regional, a Arábia Saudita.

O analista político Mohammed Khawaja diz que o sistema não permite que seja traçada uma visão nacional.

"Nem sequer conseguem traçar planos para o amanhã. Os cálculos políticos deixaram de ser feitos tendo a nação em conta, visando em vez disso apenas determinados grupos e indivíduos", ele disse. "Se você quiser responsabilizar um gestor público por cinco mansões que construiu usando recursos do Estado, é como se estivesse atacando a seita inteira à qual ele pertence."

Hassan tem fé nas gerações futuras. "Acho que nada vai mudar no futuro próximo", ele fala, caminhando com sua filha.

"Mas há esperança para as gerações futuras. O ensino hoje está ao alcance de todos, e as crianças estão crescendo inteligentes, graças a toda a tecnologia à qual são expostas. Acho que serão elas que vão mudar as coisas."

Por enquanto, porém, o fedor do lixo, especialmente na zona leste da cidade, lembra as pessoas diariamente dos problemas do país.

"Imagine-se dormindo numa latrina e acordando dentro dela todos os dias", disse Tony, um trabalhador braçal. "Ninguém nos ajudou, nunca. Os políticos só ficam falando para conseguirem chegar ao poder."

Fonte: Folha de S. Paulo/Financial Times

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