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De mecânica de aviões a piloto: conheça mulheres que se destacam na aviação

Ana Rita trabalha na troca de rodas de aviões comerciais, como o A320 e o E195. Imagem: Divulgação/Azul Linhas Aéreas.

Muitos homens ousam dizer que mulheres não saberiam trocar o pneu de um carro.

Mas, o que falariam estas pessoas ao ver o trabalho de Ana Rita da Silva, que, quase diariamente, manuseia, conserta e substitui enormes rodas de aviões Airbus e Embraer?

Técnica em eletrônica e com apenas 32 anos de idade, Ana Rita é parte da equipe de manutenção de aeronaves da empresa aérea Azul. Em seu dia a dia, ela atravessa noites nos hangares da empresa em Campinas, no interior de São Paulo, assegurando que os aviões da companhia estejam perfeitos para voar. Ela é, também, uma das representantes femininas que vêm ganhando espaço em posições tradicionalmente masculinas no mercado da aviação.

Há pessoas que ainda me indagam, dizendo: 'mas como você consegue trabalhar com isso? Avião é uma coisa pesada, complexa, não é para mulher'. Eu respondo argumentando que eu posso não ter a mesma força de um homem, mas tenho uma inteligência que me permite fazer meu trabalho com muita eficiência.

Ana começou sua história na Azul realizando a manutenção do sistema de entretenimento do interior das aeronaves, no conserto de monitores de vídeo. Em pouco tempo, estava também cuidando do lado externo dos jatos. 

"Entrei nesta área porque gosto de mecânica e de serviços que me mantenham em movimento. Ficar em um escritório, na frente do computador, não é para mim", conta ela. “E minha rotina é bem frenética. As aeronaves chegam ao hangar para verificação e devemos realizar nosso trabalho com extrema agilidade, para que os aviões possam voltar a voar com o máximo de rapidez possível. Ao mesmo tempo, temos que ter certeza que toda a estrutura dos jatos está em ordem e pronta para operar com segurança”.

Ana conta que, por dia, faz a manutenção de uma média de quatro aeronaves, que incluem os modelos A320 da Airbus (que tem capacidade para cerca de 170 passageiros) e Embraer 195 (que pode levar mais de 120 viajantes). "Além de trocar as rodas [serviço feito com a ajuda de enormes macacos e que demora aproximadamente 30 minutos], nós verificamos os trens de pouso, o óleo dos motores e buscamos qualquer avaria que possa prejudicar os voos. Também checamos o sistema hidráulico, a aparelhagem da cabine dos pilotos e toda a parte de software das aeronaves". Realizar reparos nos assentos dos passageiros e nos banheiros também faz parte do cardápio.

Em turnos à noite, Ana Rita conserta eventuais avarias nas aeronaves. Imagem: Divulgação/Azul Linhas Aéreas.

No turno de Ana, este trabalho é feito por uma equipe de 30 pessoas: 28 homens e apenas duas mulheres. Mas ela não se sente intimidada: "todos os meus colegas me respeitam e nunca nenhum deles me discriminou. O preconceito geralmente vem de pessoas que não trabalham com aviação".

Com um currículo que inclui passagens por outras empresas do mercado da aviação [como a Gol e a Revisa, uma empresa de manutenção de componentes de avião, como botes salva-vidas e máscaras de oxigênio], Ana diz que pretende continuar nesta área por muitos anos. "É algo que gosto de fazer e onde já provei minha capacidade. E lugar de mulher é onde ela quiser estar", finaliza.

Uma avaliadora de pilotos criada para ser esposa 

Ana Rita conta que teve muito incentivo de sua família e amigos para trabalhar com manutenção de aeronaves comerciais. Porém, o mesmo não aconteceu com Maria Medeiros, 44 anos, hoje comandante e examinadora de pilotos da Azul.

"Em minha casa, fui criada para me tornar esposa", lembra ela. "Minha família ficou surpresa ao ouvir que eu tinha o sonho de me tornar piloto. Eles não viam com bons olhos a ideia de que eu vivesse viajando e dormindo fora de casa".

Sem dinheiro para pagar os caríssimos cursos de formação de pilotos, Maria virou comissária de bordo em 1992 e começou a usar seu salário para bancar as aulas de voo. “Ser comissária me deu a chance de estar dentro dos aviões [ela atuou como aeromoça na Varig]. Eu batia papo com os comandantes e aprendia muito com eles. Levou sete anos para eu conseguir a autorização para pilotar aviões comerciais”.

No simulador da Azul, Maria Medeiros avalia pilotos experientes (a maioria deles homens). Imagem: Divulgação/Azul Linhas Aéreas.

Seu primeiro emprego como aviadora foi na extinta Rio-Sul. Logo em seguida, no final dos anos 1990, ela assumiu o comando de aeronaves da Varig e, depois, passou pela Gol. Ao chegar à Azul já como uma piloto experiente e dona de capacidade de liderança comprovada, Maria foi promovida à instrutora e examinadora de pilotos. 

Hoje, ela é a avaliadora dos cursos de reciclagem que todos os pilotos e copilotos da Azul devem fazer anualmente. Ela acompanha estes profissionais nos simuladores da empresa, onde eles devem lidar com situações que raramente são vistas nos voos, como pousos de emergência e incêndio a bordo, além de terem que mostrar que dominam todos os procedimentos que envolvem uma viagem aérea. Falhas podem prejudicar seriamente a carreira destas pessoas.

"É interessante porque eu já me vi avaliando profissionais que eram pilotos da Varig na época em que eu era comissária de bordo lá, e que hoje trabalham na Azul", conta Maria, para ressaltar que já sofreu preconceito de alguns de seus avaliados. "Já senti que há comandantes que não gostam de ver mulheres examinando suas capacidades. Eles fazem perguntas para me testar, mas, no final, ganho a confiança deles e tudo termina bem".

Entretanto, Maria diz que, atualmente, não há tanta discriminação contra mulheres na aviação. "Se uma mulher se dedicar para se tornar uma comandante, ela provavelmente vai conseguir. Portas não são fechadas apenas porque a pessoa é do sexo feminino. O preconceito existe muito mais nas pessoas que não trabalham neste mercado. Às vezes, vou pegar meu filho na escola com meu uniforme de piloto e muito gente vem perguntar se eu sou aeromoça. Ainda é difícil para elas perceberem que existem mulheres pilotando aviões".

Ex-aeromoça, Maria Medeiros virou uma das mais respeitadas comandantes da AzulI. magem: Divulgação/Azul Linhas Aéreas.

Por outro lado, sua família – que no início não incentivou sua entrada nesta área – tem hoje orgulho de sua profissão. “Todos os meus entes admiram o que eu faço. E eu acabei virando exemplo para outras mulheres da família, que foram fazer faculdade inspiradas nas minhas conquistas”.

Hoje, há 11 pilotos e 33 copilotos mulheres na Azul (de um total de 1.580 pilotos e copilotos). Maria, por sua vez, é a única mulher que acumula os cargos de comandante e examinadora na empresa.

A tripulação 100% feminina mostra a conquista 

Não é apenas a Azul, porém, que tem mulheres trabalhando em posições da aviação tradicionalmente masculinas. A Gol, por exemplo, emprega profissionais do sexo feminino entre seus pilotos e equipe de manutenção de jatos.

Uma delas é Silvia Ferreira da Silva, que há 11 anos atua como técnica de manutenção da companhia. Junto com uma equipe de 20 homens, ela trabalha em turnos à noite buscando e consertando eventuais avarias que possam ter ocorrido dentro dos aviões, como em poltronas, banheiros e outros espaços utilizados pelos passageiros. Para ela, nesta área, as mulheres "se destacam devido à nossa capacidade de realizar tarefas simultâneas com mais desenvoltura. E nunca sofri nenhum tipo de preconceito. Sempre tive incentivo de todos à minha volta. No ambiente onde trabalho todos me respeitam e me apoiam no que for preciso”.

Gabriela Duarte é hoje uma das pilotos da companhia Gol. Imagem: Divulgação/Gol Linhas Aéreas.

Já Gabriela Carneiro Duarte começou a trabalhar como copiloto na Gol em 2004. Em 2011, foi promovida à comandante de aeronaves da empresa.

"Desde pequena sempre gostei de aviões e já pedia aos meus pais que me levassem ao aeroporto", lembra ela. "Nunca tive problemas em ser contratada e seguir minha carreira como piloto. Acredito que o caminho está aberto para mulheres na aviação brasileira. Geralmente, as pessoas se surpreendem de uma maneira positiva quando me veem na cabine de comando. Recebo muitos elogios e palavras de apoio. Os comentários negativos são muito raros, mas quando acontecem, sempre tento brincar com a situação e revertê-la".

Gabriela gosta de lembrar de um de seus voo em que a tripulação era completamente composta por profissionais do sexo feminino. "Todas eram mulheres: a piloto, a copiloto e as comissárias", diz ela.

Minhas colegas são excelentes profissionais e desempenham seu trabalho tão bem quanto os homens. Mas o importante mesmo é não haver 'lugar de homem' ou 'lugar de mulher'. Acredito que devemos buscar a igualdade entre os gêneros. 

Fonte: Uol

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