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Latam reforça busca de rentabilidade

Com recessão, liderança no Brasil deixou de ser foco, segundo Jerome Cadier.

Apenas duas semanas após assumir a Latam Airlines Brasil (antiga TAM), Jerome Cadier já enfrenta uma turbulência que pode atrasar a reação da demanda na aviação brasileira.

Para o novo CEO da companhia, as delações dos donos da J&F que atingiram o presidente Michel Temer ampliaram incertezas políticas, minaram a confiança do empresariado e afetaram as viagens de negócios, tirando do radar a possibilidade de a empresa retomar a expansão em 2017.

"A gente precisa de um sinal [do que vai acontecer na economia]. Hoje, esse sinal não existe", disse o executivo ao Valor, na primeira entrevista desde que assumiu o cargo, em 2 de maio, quando substituiu Claudia Sender, que tornou-se vice-presidente para clientes da Latam Airlines - a holding criada em 2012 pela fusão da chilena LAN com a brasileira TAM.

Por causa das incertezas, a Latam Brasil vai seguir priorizando a rentabilidade em detrimento de participação de mercado. "Lá atrás, liderança fazia sentido. Hoje, nosso foco é ter operação rentável. A operação brasileira precisa ser rentável", disse Cadier, que era vice- presidente de marketing do grupo. Para este ano, a Latam tem meta de manter a oferta de assentos no país entre estável e até 2% menor que a de 2016. Se cortar capacidade, será o terceiro ano seguido de encolhimento no Brasil.

Há cinco anos, o presidente da holding, Enrique Cueto, também maior acionista do grupo, defendia a liderança no Brasil como estratégica no plano de longo prazo da Latam. "Naquela época seria difícil imaginar o Brasil dois anos seguidos em recessão", disse Cadier.

O tráfego aéreo no país emendou 19 meses seguidos de retração, de agosto de 2015 a fevereiro de 2017. A demanda reagiu em março e abril, com variações positivas de 5,4% e 2,7%, respectivamente, segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Mas essa reação ainda é frágil, diz Cadier. Para ele, as viagens de negócios ainda precisam voltar a crescer. "Só no segmento corporativo, a gente perdeu 30% nos últimos dois anos. O cliente de negócios representa 25% do tráfego de passageiros, mas gera cerca de 50% da receita", disse.

Com a retração da demanda no Brasil - maior mercado doméstico da holding -, a Latam teve prejuízos seguidos de 2012 a 2015, antes de apurar lucro líquido em 2016, de US$ 69,2 milhões. O ganho veio ao custo do corte da operação no Brasil, onde a empresa reduziu a capacidade em 14% de 2014 a 2016. Assim, o país, que chegou a representar 44% do faturamento da holding, hoje responde por cerca de 35%. O Chile detém cerca de 25% das receitas, seguido por Argentina, Peru e Colômbia.

Com a menor oferta de assentos, a participação da Latam Brasil no tráfego doméstico brasileiro recuou de 38%, no fim de 2014, para 32%, no primeiro trimestre de 2017. Nesse mesmo período, a Gol elevou sua fatia de 36% para 36,6%, a Azul ganhou quase dois pontos percentuais e chegou a 18%, enquanto a Avianca avançou de 8,4% a 12,5%.

Segundo Cadier, a Latam Brasil tem uma tolerância para essa perda de mercado em nome da rentabilidade. O piso estaria ao redor de 30% porque a empresa precisa ter escala mínima capaz de manter a operação rentável.

O executivo diz haver espaço para quatro empresas no mercado doméstico brasileiro, mas ressalta que "a demanda precisa voltar a aumentar" - o que depende de melhora na atividade econômica. Por isso, apontou, reforma trabalhista, redução do ICMS sobre querosene de aviação e investimento em aeroportos são importantes.

Cadier destacou que, por causa de tributação, gargalos de infraestrutura e legislação trabalhista a rentabilidade das empresas aéreas no Brasil é mais estreita que no mundo - na média, a margem de lucro antes de juros e impostos (margem Ebit) do setor foi de 8,8% em 2016, segundo a Iata, associação internacional do segmento.

Com margens baixas, apenas uma variável externa, como o câmbio, pode corroer o lucro operacional. "Quando planejamos 2017 pensamos um dólar ao redor de R$ 3,30 a R$ 3,35", disse Cadier. "A volatilidade preocupa", acrescentou.

Enquanto o transporte aéreo no país não volta a crescer de forma consistente, a Latam vai manter planos de investimento em expansão estrutural na geladeira, disse Cadier. Esse é o caso por exemplo, do hub - aeroporto de conexões - na região Nordeste.

Ele espera atrair passageiros novos com mais flexibilidade nas tarifas, com descontos a quem voa sem bagagem, por exemplo. Em dois meses, a companhia prevê iniciar a cobrança de R$ 30 a R$ 50 pela primeira mala despachada. A empresa também começa no segundo semestre a vender alimentos a bordo com um novo cardápio que está em desenvolvimento. Segundo ele, a liberdade tarifária vai estimular a concorrência e baratear o bilhete no longo prazo.

Fonte: Valor Econômico

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