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Subsídios ameaçam vendas de jatos da Embraer


Paulo Cesar de Souza e Silva, da Embraer: "O que eles querem é nos tirar do mercado, não tenho dúvida nenhuma disso".

A liderança da Embraer no mercado de jatos regionais está ameaçada por bilhões de dólares de subsídios dados pelos governos do Canadá, China, Rússia e Japão a seus novos fabricantes de aviões, constata o presidente da companhia brasileira, Paulo Cesar de Souza e Silva.

"O que eles querem é nos tirar do mercado, não tenho dúvida nenhuma disso", disse o executivo em entrevista ao Valor em Xiamen, à margem da cúpula do Brics, ao abordar a concorrência que considera desigual, que vem tanto de países industrializados como de emergentes.

"O que está em jogo é tirar emprego do Brasil e levar emprego para os outros países", afirmou. O executivo destacou que a Embraer competiu muito bem nos 48 anos de sua história, mas que a briga agora é outra, com governos bancando o desenvolvimento de sua indústria aeronáutica, atropelando a igualdades nas condições de concorrência.

Para Souza e Silva, o governo brasileiro apoia a Embraer, por exemplo, com abertura de nova denúncia contra o Canadá na Organização Mundial do Comércio (OMC). Mas os benefícios dados pelos países concorrentes "são muito mais vultosos e viabilizam essas empresas".

"Somos líderes com 58% do mercado de aviação regional e o terceiro maior fabricante do mundo, mas estamos entrando numa complexidade muito maior, que é a concorrência contra o Departamento do Tesouro dos outros países", disse o presidente da Embraer.

A briga maior no momento é contra a canadense Bombardier. O executivo destaca que o governo do Canadá injetou por volta de US$ 3 bilhões nessa empresa, permitindo que ela ganhe concorrências de forma desleal com preços em média 35% mais baixos.

"A Bombardier cometeu erros estratégicos muito grandes no passado. Se fosse uma empresa operando apenas com capital privado não estaria mais no negócio", afirmou Souza e Silva. "Mas o governo do Canadá tem essa estratégia de manter a indústria e agora competimos na prática com o Tesouro canadense." Para o executivo, trata-se de uma "briga muito desigual", na qual o concorrente não precisa dar retorno ao capital empregado, tem vantagens enormes e pode desequilibrar o jogo.

O governo brasileiro abriu um novo painel na OMC contra o Canadá por causa dos subsídios dados à Bombardier. Em paralelo, o governo dos Estados Unidos abriu processo antidumping contra a companhia canadense, que deve ser julgado em novembro. A Bombardier é acusada de vender aviões nos EUA com preço bem abaixo do custo de produção, com a diferença de 35% bancada pelo governo.

Na China, o primeiro-ministro Li Kegiang foi claro em conversa com o presidente Michel Temer: as licenças para Embraer entregar 18 aviões e para o contrato de venda de outros já 20 estão confirmadas, embora não tenham saído agora. Mas avisou que, no futuro, as vendas da Embraer vão depender da nova realidade interna, porque a China precisará proteger seu fabricante de jatos regionais.

Para o executivo da Embraer, o atraso nas licenças não tem impacto maior, porque os aparelhos da segunda geração de E-jet, que chegam ao mercado no ano que vem, vão ser entregues a partir de 2019 aos compradores chineses. Mas reconhece que, para o futuro, a Embraer terá que ajustar sua estratégia no grande mercado chinês.

A China tem plano de fabricar o jato regional ARJ-21, de 82 assentos, e o C 919, de 150 assentos, que fica pronto em 2023. O primeiro começou a voar, mas só foram entregues dois aviões. É o primeiro jato da China e enfrenta dificuldades operacionais bastante grandes, tanto que as empresas chinesas não estão operando ainda o aparelho. O avião que a Embraer está vendendo na China é maior, tem entre 100 e 120 assentos.

"Aqui o peso do Estado é grande, mas não podemos minimizar a experiência, eficiência operacional do avião e serviço pós-venda'', diz. O mercado de transporte aéreo na China cresce 12% comparado a 5,5% globalmente e 1,2% nos EUA. O país tem hoje 450 milhões de passageiros por ano e os EUA cerca de 800 milhões. A China vai ser o maior mercado de aviação do mundo por volta de 2022 e precisará de muitos aviões. Isso dá ainda uma margem para a Embraer enfrentar o produtor local.

A Embraer tem 58% do mercado de jatos regionais, seguida pela Bombardier, com cerca de 30%, e a russa Sukhoi com 4%, segundo analistas do mercado. O jato Mitsubishi do Japão tem dificuldades para se consolidar. O governo brasileiro não cessa de pedir informações a Tóquio sobre o volume de subsídios dados ao fabricante. As demandas têm sido ignoradas.

Os grandes da aviação - Boeing e Airbus - também têm seus próprios programas de jatos menores. Mas o menor deles é o maior da Embraer, com cerca de 140 assentos. "Eles têm poderio bastante grande, mas essa briga [com Boeing e Airbus] a gente pode enfrentar, porque nosso custo operacional é mais baixo e as empresas aéreas entendem isso. O problema é com o Tesouro de outros países", afirmou o presidente da Embraer.

Sobre as perspectivas da aviação comercial para 2017, Souza e Silva é cauteloso. Constata que a aviação executiva está muito fraca. Em 2008, no pico do segmento, foram entregues 1.350 aviões globalmente. No ano passado, 650. Com esse segmento muito deprimido ainda, a Embraer deve faturar US$ 1,7 bilhão na aviação executiva. Na Embraer como um todo, projeta faturamento de US$ 6 bilhões em 2017, mais ou menos igual ao do ano passado.

O E-2, a segunda geração dos jatos comerciais, está com o programa rigorosamente em dia, segundo o executivo. O primeiro avião será entregue no primeiro semestre de 2018. A Embraer já tem uma carteira de pedidos firmes de quase 300 aviões, mais as cartas de intenção, chegando num total potencial de 650 aparelhos, ainda sem o avião entrado em operação.

O programa do cargueiro militar KC-390 está 95% implementado e a primeira entrega para a FAB será no ano que vem. A negociação de venda com o governo de Portugal é importante por significar a entrada na União Europeia.

Sobre a economia brasileira, Souza e Silva considera a eleição de 2018 fundamental para o futuro do país. "Ou vamos realmente ter possibilidade de avançar muito ou perder novamente o bonde da história", diz. "O Brasil realmente precisa de ajustes importantes. O país não consegue mais ter os déficits com os quais convivemos." O executivo reconhece uma frustração entre o empresariado com as dificuldades de passar as reformas.

Na Embraer, a crise política não afeta os negócios, porque 90% do faturamento é fora do Brasil. Mas em termos de imagem há um certo impacto. "Estamos num mercado de altíssima tecnologia e a imagem do Brasil, associada ao período muito negativo que temos passado, afeta um pouco. Não sentimos nenhuma perda de venda, embora haja muita conversa, questões e a concorrência tambem tenta tirar vantagem."

Para Souza e Silva, a volta de um crescimento consistente da economia brasileira vai ser muito gradual. "Acho que só em 2023 voltaremos ao nível de antes de 2013. Perdemos 8% de Produto Interno Bruto em dois anos, é muito violento. Mas os sinais são positivos."

Fonte: Valor Econômico

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